quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O cubo mágico

O dia quente ficou do lado de fora do prédio erguido no meio da Av. Nações Unidas. O ar-condicionado engana e desmente o termômetro que marca 32º C lá fora. Sentada à frente do meu computador, olho em volta e vejo o desespero de cerca de 20 mulheres em dia de fechamento da edição da revista. Tenho mil coisas para terminar até o fim do dia: biografias, crônicas, perfis (etc. etc.) que compõem as seções de cada mês e formam o recheio de um dos principais veículos de comunicação do país. Mas a tarefa mais importante é uma que tem consumido grande parte dos meus pensamentos: colocar no papel os principais gêneros literários para uma aula de sexta-feira. Como? O jornalismo tem mil faces e cores. Faces opostas, assimétricas e geométricas. Não faz sentido e reúne todos os sentidos do mundo. Sempre considerei o jornalismo literário o mais deleitoso estilo jornalístico, tanto que dediquei meu blog a essa forma livre e tão subjetiva da profissão. Um dos grandes prazeres da vida é a leitura; mas o maior é poder criar seu próprio texto embasado em uma bagagem rica, moldada pelo conhecimento literário que você reuniu durante a vida. O jornalismo literário permite que você costure seu texto da forma que quiser: com a linha do fantástico, a cor da verdade, os tons degradê do factual e o brilho da ironia. E, assim, é possível contar a mesma história com vozes, ênfases e intensidades diferentes.

As biografias são distantes; um relato quase neutro de algo que, por mais que envolva o autor, permanece sendo uma narrativa sobre outra pessoa, outra vida e outra realidade. A biografia começa onde a vida começa e caminha proporcionalmente ao crescimento do seu ‘objeto de estudo’. E deve caminhar com uma meta, sobre uma linha de veracidade e, principalmente, manter-se fiel ao factual. O trabalho é denso, requer debruçar-se sobre pilhas e pilhas de livros para dissecar toda uma trajetória. Para os menos minuciosos, um perfil basta. Um breve relato, não menos interessante ou verdadeiro, não necessariamente superficial, mas ainda lacônico o suficiente para pontuar os principais aspectos e acontecimentos sobre uma personalidade.

Ainda estou sentada na mesma posição. Pedi auxilio para algumas grandes jornalistas aqui da redação sobre a minha grande tarefa. Olhares perdidos e confusos. Quais são as principais diferenças e características entre esses gêneros? Além do tamanho e ponto de vista da matéria, não sei, Andrezza. Não, elas não conseguiram iluminar minha dúvida. Mesmo porque, quais são as principais diferenças? Na revista onde trabalho, publicamos perfis e histórias de vida sempre. As histórias contam de alguma situação específica ou, resumidamente, sobre as principais conquistas, acontecimentos, alegrias e tragédias da vida de alguém; ou seja, sua história. Já o perfil é mais focado, mais sucinto, e ainda carrega conteúdo.

Tá vendo? Eis o encanto do jornalismo literário. Não há como definir, como explicar a teoria. É subjetivo, inteligente. Mas a magia do jornalismo literário é sua maleabilidade, qualidade que confunde até mesmo os mais intelectuais. Jornalismo ou Literatura? Cabe a você decidir. Não, na verdade, cabe a mim. A responsabilidade de entregar uma, duas ou três laudas sobre esses tópicos, é minha. Espero que minha ignorância seja perdoada.

Crônica? Bem me lembro de algo que foi dito em sala de aula: não se ensina. É pessoal, fantasiosa talvez, provavelmente crítica e carrega alguns elementos que não estão presentes no jornalismo. Ainda que diferente, a crônica patina entre os extremos... Alguns até dizem que o cronista é um poeta do cotidiano. Quem sabe? Cada um sabe da sua e ponto final.

Meu TGI. Ou melhor, meu livro-reportagem. Isso tem me tirado o sono. Intenso, extenso e recheado de detalhes detalhadíssimos (perdoe minha redundância). Foge do jornalismo convencional, pois o tradicional não suporta sua amplitude superior. A liberdade deste gênero rasga os limites impostos e é atraído loucamente pela Literatura. O tema em foco é tratado com mais minúcia, mais carinho, mais atenção. É o ‘território’ das possibilidades: onde caprichar é possível, onde você trabalha sua criatividade exacerbada e dá asas potentes à reportagem. Onde você pode ir além, muito além. Falando em ir além, ainda preciso escrever a tal tarefa. Mas como? Como definir uma coletânea? Um grupo, uma série que também balança entre os extremos, uma compilação de textos que abordam o mesmo tema, um mesmo foco - ou não. Talvez, volumes que podem, também, tratar de assuntos diferentes sob um mesmo guarda-chuva.

Essa chuva de informações aliviou um pouco meu writer’s block. Agora, ainda sentada na mesma cadeira à frente do computador, não tenho mais 20 mulheres frenéticas ao meu redor. A maioria já foi pra casa; coisa que eu deveria ter feito há, pelo menos, 40 minutos. O calor lá de fora com certeza diminuiu, e aquele sopro gelado de fim da tarde pede um casaquinho. O céu já está escurecendo - definitivamente, o horário de verão acabou. Vou parar de perder tempo. Afinal, tenho muito trabalho pra fazer. Preciso me concentrar. Ainda nem comecei minha tarefa.

Um comentário:

Rita disse...

VOCÊ CRESCE À "OLHOS NÚS" DIA A DIA!!
QUE DELÍCIA E QUE ORGULHO PODER COMPARTILHAR DESSA EVOLUÇÃO!!
BEIJOS DA SUA FÃ Nº1!!