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domingo, 30 de março de 2008

"Dia sem sentido que faz todo o sentido do mundo"

Boa noite.
E que noite! Calor, frio, noite estrelada...
Mudanças em vista! Hoje mudei de país, cidade, saí da Via Láctea mas não do meu quarto! Como a mente pode ir longe quando o tempo voa! O dia foi uma reunião de respostas, uma verdade mascarada entrelinhas. Um dia resumido em uma taça de vinho, em três horas de estudos muito interrompidos e nas soluções dos porquês da gregária vida humana. Em outras palavras, estudei para a tão confusa e dramática disciplina de Psicologia. Cheguei à conclusão de que o ser humano é completamente louco. Falamos, fazemos e pensamos coisas e motivos movidos completamente pelo nosso inconsciente. Garanto que irá além de "ser ou não ser" ou de "como você se sente hoje". Novamente, enfrento uma crise de writer's block. Como você pode ver, eu não tenho um objetivo definido com este post... Apenas para expressas sentimentos à flor da pele. Olhos inchados, corpo dolorido e desânimo visível. Será gripe? Desilusão? Saudades? Qualquer que seja o motivo, os sintomas são os mesmos. A diferença é que na gripe você espirra, na desilusão você quebra a cara e no heartbreak (sinônimo claro de saudades no momento), no famoso "coração-partido", você chora. Sutis diferenças. Leves e, muitas vezes, imperceptíveis. A intensidade e a quilometragem é o que define estas diferenças, que caracteriza um resfriado de uma vida que, de repente, perdeu seu tão-pisado chão.
Quero mudar o foco deste blog! Quero falar da febre Hilary-Obama ou até mesmo comentar e analisar a última Ata do Copom. Sinto que deveria abrir um espaço maior para o mundo, para a atualidade. Mas a verdade é que este espaço é meu e que é aqui meu lugar de entrega. Para falar do mundo, escrevo para o NOSSA GENTE. Aqui, nesta tela não muito maior que 20cm, é onde me encontro. É onde posso ser eu mesma. Sem restrições. Sou jornalista... Mas acima de tudo, sou GENTE e preciso de um lugar onde eu possa viver uma gripe, uma desilusão, uma alegria e até mesmo, um lugar onde posso jogar tudo pro alto logo depois de perder um grande amor.

quarta-feira, 12 de março de 2008

O Inimigo Está Ao Lado

Bom dia pessoal!

Devido a recentes episódios polêmicos, publico hoje aqui, um post sobre crimes virtuais. Esse novo inimigo ameaça a sanidade e saúde do mundo eletrônico, poluindo e descaracterizando os melhores aspectos da Internet. Não há segurança e não há tranquilidade. Os crimes virtuais são os grandes inimigos deste século.

A violência ultrapassou barreiras. Saiu das ruas, saiu das favelas e saiu dos faróis. A violência não pode mais ser resumida em seqüestro, bala perdida e assalto. Ela entrou na sua casa, invadiu a sua vida e agora está em toda a parte... E o pior de tudo: saiu do seu computador. Os crimes virtuais estão se tornando cada vez mais ameaçadores para os internautas, principalmente para os jovens expostos ao mundo virtual diariamente. A grande verdade é que a Internet tomou dimensões incríveis em um curto período. A curiosidade que foi gerada nas pessoas apenas impulsionou o crescimento desse fenômeno tecnológico. A cada dia, coisas novas são descobertas, criadas, feitas e desfeitas com um simples click do seu mouse. Eis o poder virtual! A realidade foi substituída por uma nova vida virtual e relacionamentos são mantidos por meio dela. Mas se a vida real foi parar na Internet, é claro que todos os seus pontos negativos foram junto... O crime, inclusive. Burlando a ética, muitos escolheram o mundo virtual como uma porta para realizar atos de violência, como divulgar, expandir e tornar acessível, a pornografia infantil. A polêmica gerada a partir disso foi tão grande, que há sérias penalidades para os criminosos virtuais. Mas o crime vai além: com as mais novas ferramentas, o sequestro também se tornou uma realidade na Internet. Os usuários divulgam dados sobre suas vidas em sites de relacionamento, como o Orkut, e ficam expostos a possíveis seqüestros, pois a partir das informações divulgadas, qualquer um tem acesso a sua vida. Com a Internet, você pode ser encontrado em qualquer lugar do mundo. Os tão comentados "Crimes Virtuais" assustam e ameaçam a população cada vez mais. É necessário estar sempre alerta, principalmente quando se tem filhos. Filtre os sites acessados por eles e assegure o bem-estar de todos. Preserve-se e tenha cuidado ao divulgar informações sigilosas. Em entrevista, o ex-delegado Fábio Garcia* afirma que "estamos expostos à essa violência" e garante que esses crimes não serão tolerados. "A pena não é menor ou menos eficaz para crimes virtuais. Devemos estar sempre alertas, pois eles estão dentro do nosso computador". A Internet é um novo mundo, a chave de acesso a uma nova realidade. Mas como toda realidade, como todo mundo, o crime também está presente.
*nome original mantido em segredo

sexta-feira, 7 de março de 2008

Gente

Novamente uso esse espaço para um desabafo. Na verdade, para “verbalizar” uma recente necessidade minha, a necessidade de “gente”. Você já sentiu isso? Bom, essa é a minha primeira vez e confesso que estou um pouco confusa. Eu nunca fui uma pessoa que precisou de outras. Sempre tive muitos amigos queridos próximos a mim e isso é fundamental! Mas ultimamente essa “falta de gente” tem me incomodado e não consigo encontrar outra palavra melhor que “necessidade” para descrever o que eu sinto. Não digo que preciso de mais amigos ou de amigos melhores! Muito pelo contrário! Os que eu tenho são os melhores do mundo! Hoje, a noite está escura e a única coisa em que consigo pensar é em quantas pessoas estão ao meu redor nesse exato momento e que eu nunca vou ter a oportunidade de conhecer. Você já parou pra pensar nisso? Há tantas pessoas nos prédios ao lado do seu, pelo menos uma em cada apartamento. Tem tanta gente para conhecer, pra ensinar, pra aprender, tanta vida pra absorver. Imagine o que cada uma tem a lhe dizer, a lhe confidenciar, cada gota de coragem que lhe dariam! Como seriam bons amigos! Viajariam juntos, dariam boas risadas, brigariam e até sairiam no tapa. Estenderiam um barbante de uma janela à outra com duas latas vazias de leite condensado em cada ponta, e assim, conversariam como duas crianças. Quantas aventuras e memórias nós estamos deixando de viver por não conhecer quem está aqui do lado. Quando digo que preciso de gente, me refiro à sede que tenho de viver e aprender mais e mais com os outros. Não peço amigos, não peço laços indestrutíveis por uma vida inteira. Peço gente. Peço companhia, ouvidos e corações abertos. Peço pessoas que sejam diferentes para que eu possa aprender a respeitar e para que me respeitem. Quero pessoas com seu próprio espaço, pessoas que não abrem mão dele. Quero a mesma pessoa para todas as situações e isso quer dizer que quero pessoas verdadeiras consigo mesmas, que não mudem a cada momento, a cada dificuldade e com cada pessoa. Quero pessoas seguras o suficiente para não precisarem de mim, mas inseguras o suficiente para sentirem a minha falta. Quero gente alegre, gente inteligente, gente que sabe o que quer da vida, mesmo que esse querer se resuma a nada. Quero gente que saiba quando brigar e quando passar a mão na cabeça. Quero pessoas que mesmo quando eu estiver errada, enfrentem o mundo inteiro só para me dar razão e que depois, e somente depois, me encoste na parede e brigue comigo. Preciso de gente que saiba ouvir... E em alguns momentos, somente ouvir. Sei que todos nós temos carências, mas cansei de ouvir sempre. Quero e preciso falar. Não preciso ser ouvido, mas preciso falar. Gritar. Espernear. Bater em panela e fazer estardalhaço. Muitas vezes, só precisamos disso. De um momento egoísta, quando o foco é a gente. É engraçado como todos acham que sempre dão mais do que recebem... Ou seja, muita gente anda distraída. Muita gente passa a vida sem prestar atenção. Eu faço um pedido: gente. Branco, rosa, negro, verde. Alto, anão, formiga, elefante, girafa, mosca ou canário. Com, sem, sim, não. Qualquer um, algum, alguém, ninguém. Seja como for, preciso de gente. Preciso de gente pra jogar pro alto e que ainda consiga cair a tempo de me segurar. Preciso disso e somente disso. De gente. Gente reciclada, gente renovada. “Gente” que sinta falta de “gente”.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Enquanto isso no Brasil... Retrospectiva 2007!

O mundo que me perdoe, mas neste final de ano vamos viajar pelo Brasil em uma retrospectiva do ano de 2007. Final de ano é aquela coisa: corre-corre para lá, corre-corre pra cá, compras de Natal e planos para o Reveillon a mil! Deixamos de lado as preocupações que nos pré-ocuparam durante todo o ano. Esquecemos das desavenças, das palhaçadas Federais e de qualquer outra coisa ruim que ocorreu aquele ano. Mas vamos lá, relembrar as principais piadas do ano de 2007:

Enquanto isso no Brasil... Foi inaugurado um novo ano e São Paulo largou na frente, com um buraco bem no meio da cidade. Não duvido que tenham pessoas morando em hotéis até hoje. E 2007 foi o ano de mudanças! Muita gente se mudou para os aeroportos nacionais! E não é que essa moda pegou? Alguns devem estar lá até agora, esperando vôo! Ninguém tirou essa vergonha do ar! E esse também foi um ano de visitas inusitadas! Presidente Bush deu o ar de sua graça! O Papa também veio ao Brasil e a única coisa que ambos trouxeram para cá, foi trabalho para a CET. O trânsito piorou! Temos que desviar até de avião! A dificuldade está quando o avião cai bem no meio da cidade. O que fazer? Ninguém sabe. E continuo adepta à frase da nossa querida ministra: "relaxa e goza"! Assim é bem mais fácil!

E o Rio de Janeiro também teve seus momentos de glória! Cristo agora é maravilha! E o Pan foi um preview das Olimpíadas de 2016. Brasil fecha o ano com a bola toda! Literalmente! Arquibancada de estádio cede e ainda insistem em sediar a Copa de 2014! Prometem reformas, ainda que 80% dos estádios nacionais não têm estrutura. É bom alguém avisar que pintura não é reforma! E a Playboy foi eleita a revista do ano por bois, laranjas e pelo Senado! Ano de greves e crises! USP virou circo e leite virou lixo! São Paulo já se inspira no Rio e ensaia tiroteio em metrô! País é Carnaval o ano inteiro! Estamos na reta final!

Está na hora de começar a introspectiva! O espírito natalino invade nossos corações e nossas casas. De repente nos tornamos boas pessoas, com amor e carinho para dar e vender! Trocamos presentes, afetos, palavras de força e incentivo para esse novo ano que já chega de fininho. A Maçã vai cair, os fogos vão soar na praia de Copacabana. E assim, iniciaremos uma nova página em nossas vidas. Começaremos do zero e daremos mais uma chance à felicidade. É bom ter o coração lotado de esperança e amor. Faz bem fechar os olhos e imaginar que dessa vez, será diferente! E quem sabe (arrisco um "se Deus quiser"), começaremos o ano assim, "enquanto isso no Brasil... Uma boa notícia"!

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

E mais um vez, o Brasil erra.

O Brasil errou. E errou feio. Não me refiro à atuação ofuscada de estrelas como Robinho e Ronaldinho pelo reserva-do-reserva Luis Fabiano e o sob-a-sombra-de-Rogério-Ceni, Julio César. Não me refiro também ao futebol desconhecido que rolou em campo, afinal, aquilo não foi futebol brasileiro (ou foi, vai saber). Não posso discutir futebol, mesmo porque, sou um tanto quanto leiga no assunto. E talvez seja melhor assim – beiro a imparcialidade. Acredito que a combinação dos jogadores já não desce tão bem, afinal, cada um adquiriu um novo estilo "jogando jogados" pelo globo. Mas olha só, já desviei do foco principal. Na abertura dos Jogos Pan-Americanos, o Brasil errou. E como já foi provado em inúmeras situações, este país não aprende com o erro. Erra de novo. E de novo. E vai ficando pra trás: em minha opinião, abaixo do 3º (mundo). Enfim, o erro prevalece e eu repito o que disse há quatro meses (dentro de instantes).

Permita-me lhe explicar o porquê de minha indignação: a vaia. Novamente, a torcida brasileira vaiou. O próprio time. Dentro do próprio estádio. Dunga, Ronaldinho, Gilberto Silva e o morto-de-fome, Kaká: dignos de vaia? Aberto para discussão. E agora, repito: “não cabe a nós a humilhação, principalmente diante dos olhares críticos de outras nações. Por mais que aqui seja um verdadeiro circo, jamais devemos garantir camarote para outros países”. Coloco entre aspas somente para enfatizar. Volte. Leia novamente. Por mais que o Dunga tenha feito escolhas equivocadas, mantendo os ex-jogadores do São Paulo em campo somente por conhecerem a Casa e uns aos outros, por mais que o Ronaldinho não tenha conseguido mostrar qualquer coisa e por mais que a perna do Gil esteja mais dura que MDF, não temos o direito de vaiar a nossa Seleção. Não podemos humilhar os nossos representantes que estão em campo na frente de outra nação. Diga o que quiser, o Brasil jogou mal por causa da torcida. É isso mesmo! Foi uma conseqüência, uma ingrata conseqüência. A torcida tem o poder de levantar, derrubar, incentivar, desmoralizar. A torcida enaltece o erro, enaltece a glória, destrói e decide o jogo.
Imagine só: você em campo. Vestindo chuteira, calção azul e blusa amarela da Seleção. Dentro do seu país, dentro de um estádio nacional. Defendendo a honra e o Brasil. A pressão que você sofre. A responsabilidade de fazer jus ao estádio lotado - a obrigação de vencer. E ao fundo, você escuta a sua torcida lhe vaiando. Aquilo ecoa na sua mente, invade sua barriga como um ar gelado e pesa no seu coração. Jogar bem e marcar gol. Ainda esperam isso de você? Garanto: a vaia brasileira enalteceu o ego – uruguaio. Nada, mas nada mesmo seria pior para o time do Uruguai do que uma boa torcida do Brasil. Torcedores com gás, vigor, patriotismo. Eles não jogavam em casa, a maior parte da torcida não era deles: existe maior pressão do que essa? Brasil ganhou de virada enquanto o estádio do Morumbi estava lotado de torcedores fajutos, vira-casaca.

Novamente o Brasil errou! E vai continuar errando enquanto não abraçar o país, enquanto não vestir a camisa. Porque, ir ao estádio de verde e amarelo, não é o suficiente para se considerar um brasileiro.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Rádios Comunitárias: A voz de um povo calado

Dizem que o Rádio é apaixonante. Alguns dizem que vicia. Não acreditava - até trabalhar na área. O meio de comunicação mais veloz na mídia atinge públicos de todas as idades de forma imediata. A Internet tem o papel de absorver tudo – tudo migra para a Internet, e com o Rádio não foi diferente. Grandes emissoras como Rádio Globo, CBN, Rádio Record, Metropolitana e Jovem Pan adaptaram-se à Internet, abrindo seus leques de oportunidades. Expandiram seu público e supriram as necessidades tão volúveis do público. Inseriram suas programações na web e facilitaram o acesso.

Um tema atual que tem gerado grande polêmica na mídia são as rádios comunitárias, conhecidas também como “rádcoms”. Mas como essas rádios se inserem na tecnologia dos dias atuais? O grande foco das mesmas é a comunidade. A inserção pública é um dos desafios que deve ser enfrentados. O espaço público é injusto, é desigual e as rádios comunitárias foram criadas para superar estas diferenças. Há participação popular, há luta pela cidadania e igualdade. Geralmente, os locutores e comentaristas das rádios comunitárias são os próprios moradores da comunidade, o que traz proximidade ao público, identificação. A população encontra nestes radialistas, traços semelhantes aos dele. Isto traz conforto e, acima de tudo, traz voz aos reprimidos e calados.

A Universidade Presbiteriana Mackenzie promoveu palestras sobre Rádio e Cidadania na Semana de Comunicação. Os apaixonados por Rádio, Luciano Maluly e Gisele Sayeg da Universidade de São Paulo, e Márcia Detoni da Universidade Presbiteriana Mackenzie, participaram do evento e ilustraram o tema para os alunos participantes. As palestras, obviamente, trataram do mesmo assunto: rádios comunitárias. Cada palestrante com seu foco e visão sobre o tema. Porém, uma opinião foi unânime: as rádios comunitárias são instrumentos de acesso da comunidade ao meio de comunicação e informação. As “rádios do povo” enfrentam ampla concorrência das grandes mídias. Elas são ameaçadas por emissoras de grande porte: disputam audiência, credibilidade e legalidade. A jornalista Márcia Detoni nos trouxe a informação de que existem 10 mil rádios clandestinas no país, superando as quatro mil rádios legalizadas. Mesmo clandestina, a Rádio Heliópolis, por exemplo, presta serviços à comunidade e realiza um trabalho profissional e sério. Apenas não recebeu a autorização para desempenhar seu trabalho de forma legal. Rádios comunitárias, como esta, funcionam como qualquer outra rádio: com programas musicais, programas jornalísticos (na maioria das vezes, programas de baixo-teor jornalístico) e prestação de serviço (por exemplo, caso algum morador da comunidade perca algum documento e o mesmo for encontrado, os locutores anunciam na rádio). Muitas “rádcoms” oferecem programas religiosos, suprindo uma necessidade grande da comunidade. Elas aproximam o povo e proporcionam espaço e voz.
Luciano Maluly apresentou o “Legado de Roquette-Pinto”. A herança do pai da radiofusão no Brasil é aproveitada até hoje. Edgar Roquette-Pinto, devido a sua persistência, implantou e dirigiu a primeira rádio do país: Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada em 1923. Ele convenceu a Academia Brasileira de Ciências a comprar os equipamentos radiofônicos depois de uma feira internacional, onde os americanos introduziram e testaram a tecnologia radiofônica no pico do Corcovado, no Rio de Janeiro. A primeira transmissão de rádio foi do então presidente Epitácio Pessoa. Encantado com este novo veículo, Roquette-Pinto enxergou o futuro: confiou e presenteou o Brasil com o veículo de comunicação mais rápido e eficaz da história. Sua primeira reação foi "Eis uma máquina importante para educar nosso povo" – e ele tinha razão. Por muito tempo, o Rádio foi o principal responsável pelo entretenimento e educação do povo brasileiro. Muitas pessoas ainda preservam o Rádio como seu melhor amigo, seu companheiro de todas as horas. Outras pessoas, abandonaram este veículo por outras mídias, como televisão e Internet. O Rádio é a reprodução de conteúdo - ou deveria ser. Luciano Maluly acredita que o Rádio hoje em dia é uma reprodução da Internet: os locutores imprimem notas e as lêem no ar, sem interpretação. Ele diz que não há como interpretar 60 informações em 20 minutos e com isso, não há interação com o ouvinte. Todos os convidados presentes concordaram que é necessário reproduzir o momento, reproduzir o cotidiano. Os jornalistas de rádio precisam melhorar a comunicação e precisam falar. O legado de Roquette-Pinto deixa claro que devemos ampliar o conhecimento e o rádio deve ser usado justamente para isso.

A Internet absorveu tudo que havia ao seu redor: inclusive o Rádio. Ele migrou para a Internet e teve que adaptar-se às novas tecnologias. A palestrante Márcia Detoni acredita que a Internet é a redescoberta do Rádio. Uma oportunidade para valorizar e ampliar o acesso à informação. Com as rádios comunitárias, há uma missão a ser cumprida: democratizar as comunidades. E com estas rádios, os deveres e direitos ficarão claros e darão acesso democrático às informaçõs. Em um país onde apenas 10% da população vive com uma renda familiar acima de três mil reais, é necessário que haja uma mídia que exerça um papel social e as “rádcoms” fazem exatamente isso. Na África e Ásia, por exemplo, as rádio comunitárias são fundamentais para a população em níveis sociais e educacionais. Novamente, o objetivo destas rádios é a consipação das diferenças. Elas não surgiram para tomar o lugar das rádios comerciais, mas sim, para somar a elas. Assim, a democratização será mais fácil e possível.

domingo, 4 de novembro de 2007

Sorrisos pela metade


Peço perdão pelo último post! Estava indefinido, sem pé ou cabeça! Mas como disse, foi um desabafo! Naquele exato momento, aconteciam coisas ao meu redor que, se eu não canalizasse minha energia e atenção em qualquer coisa, certamente teria explodido! Eu sei, eu sei. Não precisa dizer. Eu sei que ando sem paciência. Mas a culpa não é minha! Mentira, claro que é. Juro que não vou tentar justificar a minha impaciência, mas realmente sinto que as pessoas estão com os nervos à flor da pele. Você também já reparou nisso? Que bom, assim não me sinto tão estranha. Eu tenho a impressão que todos andam mais nervosos e menos amorosos – talvez seja aquela tensão e pressão de final de ano. Talvez. O motivo de meu agastamento é claro e estou com um sério problema: as pessoas me irritam. O ser humano me irrita. Com sua falsidade, arrogância, sorriso-pela-metade em uma cara desgastada. Com suas mentiras, sua inimizade, sua insatisfação. Não é de hoje essa irritação e acredito que todos já devem ter sentido isso. Mas ultimamente, ando mais cara-de-pau. Não consigo abrir um sorriso para quem eu sei que mente para mim, quem esconde coisas de mim. Não consigo ser cordial com alguém que falsifica sua amizade por mim e que ilude um relacionamento qualquer com um ar gracioso. Existe a lei da sobrevivência, a regrinha que todos conhecem, o famoso “go with the flow”. "Não questione muito, trate todos bem e siga sua vida, sem criar desavenças e inimizades". Fiz isso por muito tempo, assim como eu sei que fizeram comigo. Não deixei de acreditar na lei do “bom vizinho”, mesmo porque, ainda a coloco e prática. Máscaras, máscaras e máscaras. Faz bem colocar máscaras. Mas fez bem tirá-las também. Acredito que se você não está satisfeito, simplesmente não finja. Aja em respeito ao seu coração.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Tim Festival

The São Paulo edition of the 2007 TIM Festival was a pretty interesting experience. And that is because I was there and jotted everything down just so I could share it with you right here. I went to the festival just for one day, which was October 28th. Well, Sunday’s set list was made up of an interesting combination: Iceland’s Björk, Hollywood’s Juliette Lewis together with The Licks, UK’s Arctic Monkeys and Sam’s Town, The Killers. Björk, just as expected, was the real deal of the night. Wearing a colorful and wide dress, she “awed” the public with hits such as Independence and Hunter. Not only that, I do have to acknowledge her high-pitched voice, the magic she spreads over the crowd and how she charms every single person. I got to admit that I’m not a real fan, mainly because I know so little of her work, but I was truly amazed by her concert. Amazed to the point of having a hard time keeping my eyes off stage or drifting off my attention. Live performance and high-tech equipment are a couple of reasons why the world loves Björk. Well, taking it down a notch, those are a couple of reasons why the world has to admire Bjork. I could add more elements to that list, such as her incredible up-beat attitude, her undivided attention towards the audience, her unique dance moves across the stage, and the undeniably adorable way she thanks her fans in Portuguese: something similar to “obrigatô”. Ladies and gentlemen, hats off to Björk.
Moving forward across the set list, let’s welcome Juliette & The Licks. Under a storm of applauses, they entered stage about an hour after Björk. Wearing tight red-leather pants and a black see-through blouse, Juliette rocked the audience. She danced, spun around, threw herself on the ground, managed a couple of somersaults, audaciously moved across stage and entertained the fans, who had red feathers on their heads, just as the lead singer. To be honest, I didn’t appreciate her music all that much. In fact, not at all. I have to agree with the on-going comment that I heard several times that night: she should’ve settled for Hollywood. Even though, as a musician, she has a wide circle of admirers, her talent is limited to acting. But her charisma and sympathy gave her away. The public enjoyed her apparent satisfaction of being in Brazil, which she declared love for.


For the next act, I’ll try to be subtle. One of the most expected bands of the night was, without a doubt, the Arctic Monkeys. I must admit I was pretty anxious before they went on stage. The disappointment, however, hit me from the very first minute of performance. It struck me so bad that I really feel like tearing and breaking down every ounce of decent reputation they acquired. First of all, the fame went to their heads. A bunch of arrogant English kids, who strongly believe they’ve got it all. Please forgive me if I’m offending you in any way (who knows, you might love them), but it really got to me. And you know what? I felt sorry for the fans who drooled over that bloody-sand box-group. It goes beyond the fact that all their songs sound exactly the same: it goes into political matters. It goes into social and cultural matters. I want to point out, and I wish I could do that to their faces, the audacity and disrespect of those boys. And the worst thing is that they only did what they did because they see this country as third world, and entitle its population as ignorant. You know I question and defy this country, but I can, because I live here. I can expect and, to say the least, demand change and improvement. I can criticize, if that will help Brazil grow and become a little better. Now, I do not allow, I do not accept that a bunch of spoiled and arrogant English babies come to my country and offend my people in a language that most of them cannot understand. I cannot like and enjoy somebody who comes to my country and affronts its ways and population. The Arctic Monkeys insulted everyone who was at the Festival in English so that nobody would understand. I wish I didn’t have to repeat what they said, but if I don’t, you might believe I’m judging them simply for their music. The lead singer, whose name I really don’t care, said a loud and clear “F*** you”, as the crowd cheered, probably (and hopefully) having no idea what was being said. Whenever he’d say “Brazil” or “São Paulo” (practically the only two words 97% of the people there could understand) the crowd got of their feet and screamed as loud as they could, praising and worshipping a band who just told them to f*** themselves. And if that hadn’t been enough, the vocalist said in these exact words: “I wish I could play all night, but I can’t – now I’m just being a liar”. Now tell me, who is most wrong? Somebody who comes to our country and insults its people or the actual people who would die just so that one of those pricks would look at them? I don’t know. All I do know is that the Arctic Monkeys lost all the prestige and respect I had for them. But why would they care? For all they know, I’m just another lame and stupid person who’s in love with them. Oh, and for the grand exit: after their last song, they simply looked at each other and left – under another storm of blind applauses.
About an hour later, the stage looked pretty different: lots of flowers and Christmassy lights decorated it with a huge sign on the back that read “Sam’s Town” – The Killers’ latest album title. The crowd was pretty tired and booed the long wait. The Killers came on stage at 4 AM (when they were actually scheduled for 1 AM), and made the entire wait worthwhile. Brandon Flowers’s band was pretty faithful to the crowd’s expectations and really made the place shake up. Hits like “Read My Mind” and “Bones”, drove everybody insane – and when I say everybody, I do mean it cause why else would they wait up to 4 AM? Around 4:30, some people began to leave but came right back when they heard the first chords of “Mr. Brightside”. If bringing satisfaction and real emotion to the crowd was their goal, they achieved it. They played with passion, sang with grace and strength, and enchanted their fans. They didn’t feel the need to be arrogant or to be rude. The three-hour wait was forgotten - completely. They talked to the audience, they exchanged energy and magic. And for the first time that night, I got off my feet.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Meus, seus, nossos valores

Hoje eu li um post no blog de uma grande amiga e o seguinte assunto foi abordado: valores. Sei que é um tema batido, muito discutido. Na verdade, ouso acrescentar "valores" àquele velho ditado "não se discute futebol, religião e política". Ficou assim: não se discute futebol, religião, política e valores. E valor, realmente não se discute. Porém, hoje eu questionei alguns. Essa minha amiga contou em seu blog um episódio interessante que ocorreu durante seu final de semana. Ela foi a uma boate um tanto quanto cara (não citarei o nome, pois não quero fazer propaganda – tanto contra quanto a favor). Até aí, dar-se ao luxo de conhecer lugares bem freqüentados não tem problema algum. A grande charada da noite foi quando ela percebeu que poderia ter se divertido muito mais em outro lugar e por um preço bem menor (conheço bem este sentimento e é bem frustrante). Ela questionou o motivo pelo qual cobravam tão caro pelas bebidas e até porque exigiam tanto dinheiro simplesmente para estar lá. Ela teve muita coragem de publicar este episódio em seu blog, pois muitas pessoas fazem este tipo de extravagância sem ao menos questionar (em um mundo silencioso, dar o primeiro grito é correr o risco de produzir um eco eterno). Caso não tenha dito, quando ela foi pagar a comanda, se deparou com duas situações: uma garota pagava uma conta de R$ 740 e outra jovem, uma conta de R$ 900 – então, quando digo "extravagâncias", por favor, acreditem em mim. Caso não concorde, pare de ler este post imediatamente. Obrigada.

Continuo a postagem ao meu querido e prudente leitor: Pagar R$ 80 para estar em um ambiente "bem freqüentado" (e deixo claro que isto é relativo) já não parecia tamanho absurdo. Porém, quero que você entenda que R$ 80 reais perto de R$ 740 ainda são R$ 80 (vou ignorar os R$ 900, pois gastar esse valor em uma "balada" já é palhaçada. Por favor, consumir R$ 740 também está fora da realidade, mas tenho que manter algum exemplo). Não quero que você, caro leitor, dê menos importância aos R$ 80, somente por ser tão mais baixo. Enfim, não vou usar o velho argumento de que não se devem gastar quase mil reais em tamanha futilidade enquanto o nosso país padece na miséria – isto, todos sabem. Vou discutir valores. Na verdade, vou questionar e perguntar a você: aonde foram os valores? Primeiramente, quem gasta tudo isso em uma "balada", rico não é. E isso, eu lhe garanto. Certamente, é um "novo rico". Alguém que não sabe o valor do dinheiro e a dificuldade que é mantê-lo. Porque conseguir, convenhamos: qualquer um consegue. Manter é outra história. Para quem não sabe, dinheiro não aceita desaforo e dinheiro não nasce em árvore – isto pode ficar cansativo, porém repito: valores. Quem quer impressionar, quem quer fazer parte de um novo grupo, no qual na verdade não pertence, gasta mesmo. E gasta com um sorriso no rosto. Gasta com orgulho de ter desembolsado quase três salários mínimos. E é aí que vemos a diferença de apego, vemos como o “importante” para um é diferente do “importante” para o outro. Como que uma pessoa pode ser tão burra a ponto de se humilhar desta maneira? Humilhar, sim! Como minha amiga disse em seu post, pagar o valor cobrado nestas casas noturnas é denominar-se um idiota. Pagar R$ 15 em uma cerveja enquanto uma caixa (da mais cara) no supermercado (do mais caro) não passa dos mesmos R$ 15, é burrice. Beira a ignorância. Acreditem, já estive nesta boate onde minha amiga presenciou tal absurdo social e nunca mais voltei (valores pessoais). Ir de vez em quando, dar-se ao luxo de vez em quando, não tem problema algum. Não julgo, mesmo porque, gosto de freqüentar locais que "estão na moda". Agora eu gostaria de saber somente uma coisa: quantas pessoas, das que estão lá, pagam a conta com o próprio dinheiro? Gostaria de perguntar à jovem que gastou R$ 740 ou à jovem que gastou R$ 900, de onde veio o dinheiro delas? Do próprio bolso? Da própria conta? Na maioria dos casos, dou-lhe a certeza que o dinheiro vem dos pais. O que é bem pior: além de não terem a mínima noção financeira, não respeitam o dinheiro da própria família e nem ao menos sustentam a própria futilidade. São adolescentes (pois não ouso nem me referir a eles como adultos) sem a mínima responsabilidade. Adolescentes mal-acostumados que têm a inteligência gozada cada vez que desembolsam valores horrendos com um sorriso no rosto. Acredito que se a situação fosse inversa, se o dinheiro pertencesse a elas e outra pessoa o tivesse esbanjando, não seria tão engraçado assim. (Você vai dizer que cada um gasta o seu dinheiro como bem entende. Se a pessoa tem mil reais para gastar em energético, em garrafa de uísque e camarote, por que não gastar? Novamente: uma questão de valores). Mas como gosto de dizer, a culpa não é da fonte. A culpa é de quem bebe dela. Ou seja, não devemos julgar e condenar essas boates que exploram seus clientes; devemos condenar quem paga para ser extorquido dessa maneira. O exemplo que gosto de usar é o seguinte: devemos atribuir o problema do tráfico de drogas aos traficantes? Não. Deveríamos atribuir tal violência aos consumidores. Quem fuma um baseadinho, cheira cocaína ou qualquer outra coisa que esse pessoal usa para chamar a atenção, são os verdadeiros culpados pelo tráfico. Eles financiam a maior violência deste país – e do mundo. Pode encher a boca e me chamar de careta ou do que for mais conveniente. É a mais pura verdade. Então, a conclusão que chego é a seguinte: o motivo pelo qual essas baladas cobram o valor que cobram é simples: tem quem pague. Famosa lei da oferta e da demanda. Mas até aí, estamos tratando apenas de valores. Penso que, talvez, os meus estejam invertidos. Prefiro acreditar que não. Mas, quem sabe? Não quero que meus filhos financiem o tráfico, não quero que os meus filhos gastem o sustento de uma família inteira em caipirinhas, em energéticos ou em lugares caros somente para se sentirem aceitos. É pedir demais? Porque, na verdade, minha grande indagação, a maior das minhas perguntas e talvez, a verdadeira charada dos tempos de hoje é: o que faz um jovem tão infeliz a ponto de recorrer às drogas, às futilidades, ao álcool, ao crime? O que possivelmente poderia estar tão errado na vida de um jovem? Salvo as raras exceções, não há resposta. Jovens mimados, mal-acostumados. Jovens vazios que se sentem vitimados por uma infelicidade que eles nem ao menos conhecem – apenas acreditam que sim. Eu não conheço a infelicidade e espero que você também não. Digo que o mundo é infeliz - ou acredita ser. Posso estar errada. Devo estar errada. Mas tudo isso é uma questão de valores. Quais são os seus?

Agradeço a minha grande amiga Melissa Castagnari – a inspiração deste post. Ela, geralmente, me fornece a coragem para enfrentar e questionar. E desta vez, de publicar. Obrigada.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Retorno bom

Disse que não postaria nada até segunda-feira, mas senti a necessidade de compartilhar algo com você. Como sabe, acredito que críticas deveriam ser bem-vindas e construtivas, sempre. Elas nos dão as ferramentas para melhorarmos nosso trabalho. Mas também é bom recebermos elogios. O elogio nos dá aquela sensação de conforto - me faz pensar que talvez esteja no caminho certo. O elogio, assim como a crítica, me dá a força de vontade para seguir em frente, com menos medo de errar... Porque alguém nos admira e acredita em nós.

Recebi um e-mail do jornalista Ucho Haddad e com sua permissão, posto uma cópia do mesmo abaixo. Agradeço a este mais novo amigo pelas palavras de incentivo e carinho e admito que fiquei muito contente. Quero dividir isso com você caro leitor, que também me acompanha. Obrigada.


*
"Andrezza Duarte! Ouvir esse nome repetidamente, em futuro próximo, é uma certeza presente para mim. Tão equilibrado quanto quem o empunha, tal fonema composto é uma realidade prazerosa de se ouvir. Com o devido direito de achar que se trata de uma maluquice de minha parte – um desconhecido qualquer -, você, Andrezza, ressuscitou em mim a crença de que escrever não pode acabar de uma hora para outra. Confesso que começava a me acostumar com o desânimo de não ter um novo alguém para admirar. Todos os que atualmente admiro já estão, como eu, com o velocímetro da vida um pouco avançado. O tempo passa para todos, mas por tudo o que escrevo, e como escrevo, sei que ainda sou jovem. Por sorte, minha alma ainda não me impôs a velhice. E creio que tão cedo não fará.

Com a devida licença de Manguel, sou o mais comum dos seus espectadores. Um espectador que, com todos os realces permitidos, capturou não a sua imagem, mas você, como um todo, pelos chamados outros sentidos. A captura se deu pela intensidade coerente de seu texto. Nele está a sua essência de ser humano, de jornalista. Ou seja, e já atropelando Foucaut, o que me atraiu não foi a imagem que desconheço – e tampouco construí alguma – mas o texto em que mergulhei.

Roubando-lhe parte do que está em seu blog, as interpretações que dei ao seu texto são as respostas apaziguadoras que buscava para facilitar o meu entendimento em relação ao mundo e à minha própria existência. Por maiores que foram as críticas que colecionei ao longo dos anos, sabia que só não estava nessa empreitada. Suas palavras ampliaram o infinito das possibilidades que povoam meu pensamento. É como sujeito social, olhando e enxergando com a alma, que, calcado em um coquetel de experiências e aprendizados, consigo vislumbrar o que até ontem foi um pesadelo, mas a partir de hoje tornou-se um sonho possível. Encontrar alguém que me sucedesse nessa insana e patriótica batalha de mudar o País através de um jornalismo sério e independente. E esse “alguém”, se Deus permitir, é você. Até porque, como se mágica fosse, aprendi a admirá-la"

Ucho Haddad
São Paulo, 17 de outubro de 2007. ________________________________________________

Ucho Haddad é jornalista investigativo, colunista político, poeta e escritor. Editor do http://www.ucho.info/, é articulista do site do jornalista esportivo Wanderley Nogueira.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Mailbox

I like to think that life works in a funny way. It allows you to sink and drown as it greets you with magical under-water experience. I’m finally getting some time off work. Actually, getting some time off everything. Off to Rio tomorrow as a prize for all the hard work and sacrifice. Drama, drama drama. But indeed, off to Rio. All I needed was some time to rest and to relax. I guess I won’t be posting anything until Monday, but at least you’ll know why. This morning I was reading some old e-mails. Some of them, I didn’t even remember. It was interesting to relive some situations and “refeel” some feelings. Well, as far as I’m concerned, there is nothing wrong in doing that sometimes. It feels good to remember and cherish old memories. It feels good bringing back to life people who dwell in your past. It’s something you do within yourself, a secret you hide. Nobody has to know what you think, what you feel and even who you think about. Every now and then, you remember, you hold it close to yourself and you close your eyes so that it doesn’t give you away. Every now and then, you listen to a certain song, or songs, and you hide your love away. You have to…You spend months and years of your life without those memories, but never a day. Never a day goes by that you don’t think about it. Never a day goes by that you don’t feel it. Never a day goes by that you don’t long to bring that, him, her, back into your life. Just for a moment, just so you can settle for what’s best, just so you can choose. Simply tired of letting life make your decisions. I know I am. Anyway, take some time off and read your old e-mails. It’ll make you feel good, safe, comfortable, but also, miserable. And you know what? It’s ok. It’s ok to feel miserable at times. As long as it’s for a good cause – a good memory, a good person, a good e-mail. You’re allowed and bound to let moments and people die, just like they do inside your mailbox. The thing is, in life you can’t always rescue it. In real life, usually, if you let it go, you either forget about it or you regret it. And it can get worse: realizing everything you let pass by when it’s just too late to even think about it. But don’t worry: when you drown, life will certainly give you enough breath to live your magical under-water experience. And maybe, that experience, is exactly the one you let go years back. “If you love something, set it free. If it doesn’t come back to you, it was never yours to begin with” – and you usually know. I know I do.
Going to Rio will certainly be somewhat interesting and relaxing. A trip to get my thoughts off work or anything that may be troubling me. I'd rather think it's just like any other trip. Just like any other place. I just wonder, deep inside, if there is anywhere else in the world I’d rather be. And still today, i'm guessing no.

Edição Especial - O Alfaiate


Um dia me contaram uma história. Como qualquer outra. Com começo, com meio e sem fim. Tem passado. Tem presente. Mas ainda não tem futuro. Um dia um alfaiate me contou uma história. Uma historia que nunca esqueci. Não pude. Seria traição. Omissão. O Alfaiate me contou a história no dia 15 de setembro do ano de 2006. Seria mais bonito, mais romântico, se a historia tivesse sido pronunciada no final do século XX... Mas não, é recente. 2006. Hoje, mais de um ano depois, decidi contar essa história.
A “fonte” de todo jornalista deve ser respeitada e cultivada. A fonte tem as rédeas da carroça do profissional e se ela puxa, ele pára. O Alfaiate me pediu para não publicar a história nos mínimos detalhes. Na verdade, não deveria dizer qualquer coisa. Por este motivo, não vou ser objetiva, não vou ser clara e realmente espero que você não entenda. Mas é uma historia que nos faz pensar. Uma história que se levada a sério, poderia acabar com toda a estrutura de um povo. Destruir o que há de mais concreto em um país. Não faço acusações, não aponto dedos e não faço críticas. Apenas conto. Meu papel como jornalista, neste caso, é de simplesmente contar uma historia sem procurar e tentar provar qualquer possível veracidade na mesma. Então contar pra quê? Conto porque tenho certeza que ninguém vai acreditar. Então, esta aí: O Alfaiate, meu primeiro conto de ficção.


Encontrei-me com o Alfaiate em um lobby de um hotel no centro da cidade. Nunca tinha o visto e sequer falado com ele. A história já me era familiar, pois o encontro foi marcado justamente para ouvir dele, a maior revelação da história deste lugar. Nada como beber da fonte a água mais fresca. O Alfaiate já tinha bastante idade, talvez estivesse em seus 70 e poucos anos. 70 e poucos anos de muita costura, muita historia e muita omissão. Mas o meu papel, não é o de acusação. E na verdade, nem o dele. Conversamos como velhos amigos, sem intuito jornalístico (Talvez com uma pitada de intuito jornalístico). Mas conversamos como velhos amigos, colocando a conversa e as nossas vidas em dia. Sempre fui uma amante de História, gosto de conhecer o passado pra compreender o presente e futuro. (Dizem que o tempo é cíclico, não é?). Mas enfim, colocamos os fatos em dia pela primeira vez. Na verdade, nos apresentamos e contamos um pouco um do outro pela primeira vez. O Alfaiate, sempre muito calmo e interessado, ouvia meus planos de vida, meus sonhos. E temia a pergunta que estava por vir. Ele sabia o verdadeiro motivo pelo qual havia agendado uma “conversa” com ele. Ele sabia que teria de me contar tudo, porque era dele que eu queria ouvir. E o medo dele, o grande medo dele, era que eu viesse a contar a mesma história um dia. Ele temeu minha curiosidade, minha insistência e minha paixão: o jornalismo. Dizem que o jornalismo vai matar o jornalista, mas vai mantê-lo vivo enquanto ele o faz. E é bem por ai. Existem lugares onde não podemos ir. Situações onde não há espaço para questionamento. Existem historias que não devemos tentar encontrar qualquer veracidade dentro dela. Devemos deixar de lado, omitir. E hoje, venho e lhes escrevo com apenas um objetivo: concretizar o grande medo do Alfaiate.


Como disse, encontrei-me com o Alfaiate em um lobby de um hotel no centro da cidade. Caso não tenha mencionado antes, a cidade era São Paulo. O tempo estava quente quando estacionei meu carro em frente ao hotel. O recepcionista me disse que já me esperavam no lobby próximo ao bar. Subi as escadas barulhentas. Escadas de madeira apodrecida. A porta de vidro era pesada. Hoje não sei se ela realmente pesava tanto assim ou se era o peso da minha ansiedade e nervosismo. Uma ansiedade e nervosismo que ainda me eram estranhas. Era a primeira vez que alguém me contaria alguma coisa de inestimável peso. Penso que até hoje, nada me marcou tanto. Nada veio com tanta força e nada me deu tanto desejo de explorar, de entender. Mas fiz nada a respeito. Sempre ouvi com serenidade, absorvi com serenidade e hoje lhes conto com o mesmo sentimento. Não pretendo levar nada à diante, não pretendo fazer capa de jornal. Mesmo porque não há como provar – lembre-se: é apenas ficção. Quero apenas tirar isso do meu peito e conseguir, finalmente, ignorar. Obviamente, não sabia que me sentiria dessa maneira hoje em dia. Se soubesse, certamente não teria atravessado, com grande esforço, a porta de vidro. O lobby era escuro, apesar das luzes amareladas. O ambiente era pesado e cheirava a mofo. Assim que entrei, havia um bar ao meu lado esquerdo, com centenas de copos de vidros pendurados de ponta cabeça. Copos velhos e já desgastados. Caso não tenha mencionado antes, o hotel era simples e bastante velho. A entrada do hotel era nada mais que uma porta pequena, quase que imperceptível a quem passava com pressa pelas ruas do centro paulistano. - Voltemos ao lobby. Ao lado esquerdo do bar, meu lado direito, um homem de cabelos brancos sentava-se curvado sobre a mesa com um copo de uísque entre as mãos. Ele observava o gelo derreter aos poucos enquanto devaneios invadiam sua mente. Distraído, não me ouviu entrar e sequer sentar ao lado dele, em uma cadeira de madeira estragada. Demorou alguns instantes até que ele levantasse os olhos e notasse minha presença. Com um sorriso morto, ele permaneceu calado. E nesse sorriso, vi sua tensão, senti sua apreensão. Por algum motivo, tinha certeza de que o homem ao meu lado, era o Alfaiate. Não perguntei, não questionei. Apenas sabia. Talvez pelo ar de medo que o circundava enquanto mirava aquele gelo flutuando e derretendo dentro da bebida quente. Era claro que aquela não era sua primeira dose de uísque. Era claro que ele havia sentido aquele calor descer e queimar e atravessar cada parte do seu corpo milhares de vezes durante muitos anos passados – e também naquela tarde. Por alguns minutos, permaneci calada e o perdi. Perdi sua atenção que havia sido voltada ao gelo. Finalmente criei coragem e mesmo já sabendo qual seria a resposta, perguntei seu nome. Ele me respondeu com toda a calma do mundo – “Sou o Alfaiate”. Eu esperava ouvir o seu nome, mesmo que já soubesse. Pelo menos seria algo mais humano, que nos aproximaria. Criaria uma intimidade automaticamente. Conversaria com ele de igual para igual e assim, nosso papo fluiria. Mas não. Seu nome não foi pronunciado uma vez sequer, durante toda aquela tarde. Muitas vezes, me peguei quase dizendo o seu nome, mas antes que eu terminasse, as silabas morriam na minha boca. E foi assim que começou a minha tarde com o alfaiate.


Como disse, conversamos como se fossemos velhos amigos. Mas isso só aconteceu quando o gelo derreteu. Ele não tinha mais aonde desviar o olhar e se perder na distração. Ele se mostrou um ótimo ouvinte e uma pessoa com perfeita dicção. Ele escolhia cada palavra com muito cuidado, com muito medo de errar. Aliás, percebi aos poucos, a cada gesto e frase, que ele era um homem que vivia no medo. Ele me contou que durante sua carreira havia feito ternos para todos os tamanhos e costurado para os homens mais elegantes da cidade. Ele já havia conhecido as mulheres mais lindas da época e havia desfrutado do melhor da elite paulistana. Aos poucos, me contou que em todos os anos de profissão, ele havia presenciado muitas situações e ficado sabendo de muita coisa que ele nunca havia contado a ninguém. “Um alfaiate está lá pra costurar. É como se ele nem estivesse lá. Faz seu trabalho e vai embora”. Assim ele definiu seus anos na profissão. Ele nunca teve a coragem de enfrentar, questionar ou tentar entender. O Alfaiate sabia de tudo, mas continuava costurando. Ouvia tudo, mas continuava costurando. O Alfaiate é o tipo de testemunha que ninguém percebe a ameaça que ele apresenta até ameaçar, pois sempre muito quieto, presenciava, via, ouvia e sabia de tudo. Mas não este alfaiate. Este era leal. Era omisso. Até aquele dia.


Naquela época eu ainda era uma estudante de jornalismo. Na verdade, ainda sou, mas ainda não trabalhava na área. Ficou confuso. Comecemos novamente: Naquela época eu ainda não trabalhava na área de jornalismo. Não havia me deparado com o jornalismo verdadeiro. Eu entendia, antes mesmo de sentir, o que era ser jornalista. Mas até então, nunca havia sentido o sangue pulsar e correr desesperadamente pelo corpo. Queria perguntá-lo sobre a história, queria que ele me explicasse, queria que aquela música fosse cantada com a sua voz. Não sabia como perguntar, pois ele parecia estar evitando o assunto muito mais do que eu. Mas ele não mostrava nenhum indício de que iria tocar no assunto. Já eu, estava suando. Não gosto de parecer desesperada, mas aquela historia havia me consumido há semanas. E não pensei duas vezes antes de armar a entrevista. Caso eu ainda não tenha mencionado, fiquei sabendo dessa história através de um grande homem. Um homem que considero parte da minha família. Não vou dizer quem, pois não quero que ninguém tire conclusões ou entenda algo que não estou dizendo. De qualquer maneira, o Alfaiate havia contado antes pra ele. Não acreditei como espero que você não vá acreditar. E por isso, marquei a conversa. E é por isso que precisava tanto que ele me contasse com suas próprias palavras, sem o exagero do “telefone sem fio”. Sem qualquer informação mal-interpretada e tudo bem claro. Ele finalmente ameaçou começar o que eu achava estar tão longe. Limpou a garganta e recomeçou – “Sei porquê você está aqui”, e pausou. “Claro que sei. O que eu não sei é porque vou contar isso pra você, afinal esta é a primeira vez que nos encontramos. Você trabalha com jornalismo ou apenas estuda?” E eu respondi. Eu era apenas uma estudante. Que se esqueceu de levar o gravador no dia mais importante da carreira jornalística dela até então. E isso foi um alivio para o Alfaiate. Sem um gravador e sem qualquer experiência, ouvi atentamente, anotando uma frase aqui... Outra ali.


Depois de algumas horas ele suspirou e disse “Enfim, você já ouviu tudo que queria e precisava. Para um bom entendedor, meia palavra basta. E pra um jornalista, nem meia é necessária”. A história, na verdade, é curta. É rápida. E é simples. Essas horas, talvez, nem existiram. Talvez não tenham passado de minutos. Entre pausas, goles de uísque e excessivos pigarros, o Alfaiate encerrou a história. Com um olhar triste, porém, mais iluminado do que o ensaiado no começo daquela tarde, ele mordeu o lábio inferior.


A História

Ele não soube me dizer a data. Hoje sei que ele não quis me dizer a data. Talvez para eu não ligar os fatos, estabelecer relações não permitidas. Mas gosto de pensar que ele gostaria de ter me contado tudo. De não ter poupado qualquer detalhe, nome ou data. Mas ele não o fez. Tentei contatá-lo de novo, há alguns dias, mas sem sucesso. Queria, novamente, ouvir dele, a verdade. Mas dessa vez, queria nomes. Datas. Queria detalhes. Mesmo sem essas peculiaridades, vamos lá.


Naquela manhã, o Alfaiate havia perdido a hora. O relógio já marcava 06h37min - 37 minutos a mais que o de costume. Rapidamente, se levantou da cama e em questão de minutos, já estava vestido e tomando café na copa. Café que ele havia coado na noite passada e que agora, não aquecia mais a sua garganta. Ele não deve ter percebido que o café estava gelado, pois em apenas um gole, matou a xícara inteira. Enfiou um pedaço de pão amanhecido na boca e saiu pela porta da frente, desceu as escadas e saiu do prédio. Andou quase 500 metros quando percebeu que havia esquecido sua maleta de alfaiataria, o que dificultaria muito o seu trabalho. Subiu rapidamente as escadas e teria descido em questão de segundos, se não fosse aquela velha porta de madeira que sempre emperrava. (Ele já havia ligado para o marceneiro umas três vezes só naquela semana e nada do moço aparecer). De qualquer maneira, quatro minutos depois, ele estava de volta à rua. Justamente hoje, ele não poderia se atrasar. Hoje o cliente era importante. Em dois anos de serviço com este freguês, ele jamais havia se atrasado no dia da visita. Nem uma vez. E esta seria a primeira.


O Alfaiate já conhecia bem o caminho, conseguiria ir de olhos fechados. Ele havia conquistado a lealdade de todos seus clientes: nunca atrasara uma entrega, jamais cometera qualquer erro em um terno e sempre recebera elogios. Fazia isso há anos e com o passar do tempo, ele conquistou também, a confiança dos clientes. Quando ia à casa de alguém, todos seguiam com seus afazeres como se o Alfaiate já fizesse parte da casa. E o mesmo acontecia nas empresas e nos escritórios. Enquanto tirava a medida de grandes empresários e advogados, eles não se intimidavam com a presença do Alfaiate e continuavam suas reuniões, tomavam decisões e acertavam contratos. Tudo na frente do Alfaiate. Como ele mesmo disse, os alfaiates não ouvem, pensam ou falam. Fazem seu trabalho e partem. Mas naquela manhã, ele ouviu. Ele pensou, mas não falou nada por anos. Seu cliente de hoje era um homem muito importante no meio automobilístico. Ele e seu irmão. Eram figuras de peso. Clientes leais. Como sempre, ele entrava sem muita presunção e já começava a tirar as medidas. Eles eram do tipo de cliente que não se importavam com a presença do Alfaiate, continuavam seus afazeres como se ele nem estivesse lá. Geralmente perguntavam “Você não se importa se nós continuarmos nossa reunião, amigo?” e a resposta era sempre a mesma, “Claro que não. Não estou aqui”. Então, depois da aprovação, eles seguiam com a calorosa discussão. E era sempre a mesma coisa: discutiam diferentes maneiras de aumentar o preço de seus carros. Entre risadas, doses de uísque e charutos, o Alfaiate costurava aqui, media ali... E sempre, duas horas depois, terminava o trabalho e saia pela porta dos fundos, com a promessa de retornar uma semana depois com os ternos prontos. Em exatamente sete dias, lá estava o Alfaiate, com os ternos em mãos. Impecáveis. Tempos depois, ele retornaria à fábrica com uma nova missão: novos ternos para novas ocasiões. E assim, era a relação dos Irmãos-Poderosos com o Alfaiate, que somente anos depois, foi perceber a estranheza que se passava dentro daquele escritório.


Na manhã de hoje, tudo seria igual. Normal. Eles discutiriam maneiras para aumentar ou diminuir os preços dos automóveis, ele seguiria às cegas e tudo ficaria bem. Uma semana depois, lá estaria ele novamente. Eles perguntariam a ele se poderiam seguir com a reunião sem que ele se incomodasse. E é claro que poderiam. E continuavam. Discussões calorosas animavam o ambiente. Como você certamente sabe, a mudança de preço dos automóveis não é tão sensível assim. Principalmente naquela época. A economia precisa “balançar” e quando isso acontece, o preço sobe ou desce. Hoje o que determina uma mudança na economia é diferente de 30 ou 40 ou até 50 anos atrás. Hoje temos o frete, a carga tributaria; 30 ou 40 ou até 50 anos atrás, eles tinham o Luizinho. “Chamem o Luizinho!” – o Alfaiate ouviu muito essa frase durante seus anos de trabalho com o Irmãos-Poderosos. Luizinho era apenas um garoto. Em meio às discussões sobre o valor de seus automóveis, um dos Irmãos mandaria chamá-lo. Minutos depois, um jovem entraria na sala e se sentaria à frente de um dos Irmãos. Uma mesa de vidro com um valor incalculável separaria os dois. E isso virou uma rotina. O Alfaiate já conhecia o menino Luizinho apenas pelo barulho de seu sapato contra o chão. Já conhecia o som de seu caminhar, pois raramente levantava os olhos para encará-lo. Luizinho não ficava mais de 30 minutos dentro do escritório: as reuniões eram sempre muito rápidas. Era como se o Luizinho trouxesse a solução sempre. E uma solução imediata. Era como se ele caísse do céu. Na verdade, quem bolava as soluções eram os próprios Poderosos; Luizinho apenas as colocava em prática. E isso ele fazia muito bem. Sentava-se de costas para o Alfaiate, o que incomodava nosso amigo. Era como se o menino temesse qualquer aproximação, qualquer envolvimento. Mas o Alfaiate fingia não perceber.


“Chamem o Luizinho!” – o jovem entrava e imediatamente se dirigia à mesa. Não falava, apenas encarava o terno a sua frente, pronto para receber ordens. Com um estalo de dedos, um dos seguranças se aproximou com uma maleta de couro surrada. De dentro, sempre saia uma alta quantia de dinheiro. O Alfaiate nunca soube o valor exato e se era sempre o mesmo valor a cada visita do garoto, mas eram muitas notas, muitas pilhas de notas. Era muito dinheiro. E tudo isso era colocado à frente de Luizinho, sobre a mesa de vidro: “Luizinho, você já sabe. Desta vez, quero que você inicie a greve na próxima quarta-feira e encerre três dias depois. Esse valor deve ser o suficiente”. E com isso, Luizinho guardava o dinheiro e saia pela porta. Algum tempo depois, ele estaria de volta. Sentaria à mesa. Combinaria uma nova manifestação, uma nova greve. E sairia com o dinheiro debaixo do braço. Por sua vez, os Irmãos-Poderosos, com o pequeno “balançar” da economia brasileira, mexiam no valor de seus automóveis. É claro que o Alfaiate ouvia e assistia e pensava. É claro que ele sabia que alguma coisa de estranho (e errado) acontecia a cada visita do jovem Luizinho à fabrica de automóveis. Mas não foi até muitos anos depois que ele entendeu o que ele havia presenciado por anos. Do que ele havia sido testemunha durante todas aquelas manhãs. Não foi até muito tempo depois que ele reconheceu o jovem revolucionário. Não foi até muito tempo depois, talvez tarde demais, que ele conseguiu assimilar exatamente em quê o menino Luizinho havia se tornado. E em quem ele havia se tornado.


E como já dizia o Alfaiate, para um bom entendedor, meia palavra basta

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Imagem, Palavra e Sujeito Social

Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. As palavras lhe dão espaço para imaginar, criar e inventar. A imagem lhe dá espaço para interpretar. É interessante agrupar sentimento, textura, cor e opinião em apenas uma figura. As palavras podem descrever, moldar, dar vida e presentear a sua imaginação de possibilidades infinitas. Os olhos nem sempre precisam enxergar para poder ver. Muitos enxergam com a alma e quem lhes dá este poder de visão, são as palavras. Os olhos limitam a capacidade de criação e invenção do sujeito social.

O incrível de uma imagem é que ela jamais representará a mesma coisa para duas pessoas diferentes. Cada ser humano carrega sua bagagem, carrega seu passado e sua parcialidade. O sujeito social molda a sua interpretação de acordo com seus conhecimentos e suas experiências. Nosso caráter e personalidade têm grande peso sobre a maneira como enxergamos e avaliamos uma imagem, uma situação, um texto.

Segundo Michel Foucaut, o que mais nos atrai entre uma figura e um texto, é a figura. A imagem serve como representação de milhares de coisas, e para cada pessoa, a definição é uma. A imagem pode ser enganadora, pois pode mostrar uma realidade falha e muitas vezes, opostas à realidade do sujeito social em questão. O mesmo é moldado de acordo com a sua realidade e aprende a suprir suas necessidades. Por esse motivo, o ser humano encontra em imagens e palavras, complementos para o seu vazio. As interpretações dadas são respostas apaziguadoras que facilitam o nosso entendimento em relação ao mundo e a nossa existência. O significado de uma figura se modifica de acordo com o momento de vida em que o sujeito social se encontra, seu estado emocional e psicológico e até mesmo de experiências recentes. O significado muda invariavelmente. Porém, todas as tentativas de dar significado, interpretação ou vida para algo, são maneiras de nos confortarmos.

No texto “O espectador comum – A imagem como narrativa”, de Alberto Manguel, “imagens são capturadas pela visão e realçadas ou moderadas pelos outros sentidos”. Uma imagem tem a capacidade de ativar todos os sentidos de um sujeito social, capaz de ser traduzida em palavras e palavras em texto. Se a imagem for, por exemplo, de um delicioso bolo de chocolate, o sujeito social poderá ser capaz de sentir o gosto, de imaginar sua textura e de sentir o seu cheiro. Automaticamente, ele traduz todas as descrições de sua mente em palavras. Transforma a imagem em texto. O mesmo ocorre em situação oposta: se um sujeito social acompanhar a descrição de um bolo por meio de palavras, sem o auxílio de uma imagem, ele é capaz de criar e visualizar o bolo em sua mente. Obviamente, o bolo descrito está aberto às interpretações e provavelmente, a imagem que o mesmo criou em sua mente, não é a mesma da descrição. Se um segundo sujeito ler a descrição, imaginará um bolo completamente diferente, pois suas referências são outras, sua bagagem é outra.

A imagem e a palavra trabalham juntas por meio de associações e é isso que difere um sujeito social de outro: as coisas com as quais as associações serão estabelecidas, não serão as mesmas. O sujeito social cria suposições de significados. Mas, como traz o texto, “qualquer que seja o caso, as imagens, assim como as palavras, são a matéria de que somos feitos”.



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Trecho do texto no qual este post é baseado: "O espectador comum - A imagem como narrativa" - Alberto Manguel
"Sem dúvida, para o cego, outras formas de percepção, sobretudo por meio do som e do tato, suprem a imagem mental a ser decifrada. Mas, para aqueles que podem ver, a existência se passa em um rolo de imagens que se desdobra continuamente, imagens capturadas pela visão e realçadas ou moderadas pelos outros sentidos, imagens cujo significado (ou suposição de significado) varia constantemente, configurando uma linguagem feita de imagens traduzidas em palavras e de palavras traduzidas em imagens, por meio das quais tentamos abarcar e compreender nossa própria existência. As imagens que formam nosso mundo são símbolos, sinais, mensagens e alegorias. Ou talvez sejam apenas presenças vazias que completamos com o nosso desejo, experiência, questionamento e remorso. Qualquer que seja o caso, as imagens, assim como as palavras, são a matéria de que somos feitos"

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Não preciso de muito

Dizem que não é possível definir o amor. Talvez seja mentira, mas a minha definição é essa: É dormir na mesma cama quando tem uma sobrando no quarto. É tirar o seu casaco para aquecer o outro. É dar a mordida mais gostosa do seu lanche. É dar o último gole mesmo que esteja com sede. É agradar sem perceber. É se perder propositalmente. É não agüentar esperar uma ligação e fazê-la você mesmo. É não precisar de mais ninguém (e eu não preciso). É beijar a boca. Os olhos. O nariz. É dar a mão, o coração e a vida. É reconhecer o amigo dentro do amante. É desesperar ao acordar sem o seu amor. É inventar uma desculpa qualquer para dar o primeiro beijo. São conversas, confidências, surpresas, conselhos, abraços, risadas, flores, alianças, ciúmes, brigas, sogras, sogros, lasanha de shimeji, apertos, medos, mordidas, dúvidas, compreensão, choros, beijos, passeios, promessas, viagens, sustos, vontades, dores, gritos, carinhos, agrados, cookies, destino, desejos, ouvir, palavras, músicas, filmes, decepções, caronas, massagens, sorvetes. É fazer dar certo.

Bolha de quê?

Estou sem tempo para qualquer coisa. Preciso arrumar o vidro do meu carro, para anteontem. Tenho milhares de coisas para fazer pra semana passada e simplesmente não acho um espaço no meu dia, uma vírgula pra respirar. Preciso sair, distrair, dançar. Falta descanso, tempo, brecha. Ando com a atenção voltada à situações inquietantes: ações e reações, aceitação e negligência. Enfim, neste momento não encontro a maneira correta de me expressar com coerência, mas por alguma razão sinto a necessidade de traçar meu ponto. Qual será o motivo de enxergarmos somente o que queremos ou somente o que acreditamos conseguir enxergar? Ficou confuso, mas vamos à diante. Qual será o motivo? Acredito que somos todos vulneráveis e passíveis de erro. Por não enxergar. Vivemos dentro de uma bolha: sem ar, sem espaço. Sem movimento, som abafado. E aí, estoura. Um belo dia estoura. Caímos. Batemos a cabeça. Quebramos nossos ossos. Mas sempre tem alguém que nos levanta e nos ensina a viver com espaço, com ar, com movimento e com som límpido. Adaptção. Dê a mão a quem lhe estende. Segure firme. Muitas pessoas vão desejar e inclusive tentar separar esta união, esta cumplicidade. A sua obrigação é não permitir, não dar o espaço, o ar, o movimento e o som. Fique perto de quem você ama e isto bastará. Ouça as vozes que lhe querem bem, que lhe acalmam e lhe protegem.

E saiba a diferença.

"Coloque-se por inteiro"


Resolvi postar as palavras de uma pessoa que admiro e respeito. Alguém que sabe o que, como e quando falar. Alguém que sabe o que preciso ouvir. Enfim, está aqui:

“Coloque-se por inteiro. Em tudo. Não espere acertar. O grande significado é doar-se. Doação. Entrega total. Incondicional. Quem se entrega por inteiro não precisa de prova e nem precisa provar nada pra ninguém. Só erra quem arrisca, quem tenta e quem faz. Eu erro, você não? Tenho limites, você não? Nada nos faz sentir mais completo do que a certeza do amor”

Auto

Com o passar dos dias, as coisas deveriam ficar mais fáceis. Mas não ficam. A cada dia, fica mais longe o que poderia chamar de tranqüilidade. De resolução. De completo. Dizem que o tempo é o melhor remédio e eu concordo. Mas é um remédio homeopático. Custa a passar a angústia. Custa a aliviar o sentimento de pressa, de aperto e de desespero. Eu mesma não sei como. Não tenho paciência com o tempo. E paciência é a única condição que ele impõe; a única súplica que ele faz. O tempo cura, mas a arma que mais fere está sempre com você, dentro de você. A sua consciência zomba da sua ingenuidade, das suas atitudes e não cansa de criticar, pressionar e machucar. “Não importa aonde você vá, você sempre estará lá”. O engraçado é que vivemos a vida inteira tentando provar aos outros nossos valores, nossa competência, nosso amor, nossa dedicação, nossa fidelidade, nossa honestidade, nossa fé e nossa verdade. Vivemos toda a vida tentando provar quem somos. Pra quem? Esquecemos que quem precisa de provas constantes, de pedidos de perdão e de tudo que passamos a vida inteira tentando mostrar, somos nós mesmos. Aceitar que os nossos valores muitas vezes são falhos; que não somos tão competentes quanto achamos; que o nosso amor é abalado mesmo que verdadeiro; que a nossa dedicação é escassa e deixa a desejar; que a nossa fidelidade pode fraquejar; nossa honestidade nem sempre tão honesta assim; que a nossa fé é duvidosa; e que nossa verdade não passa de uma grande mentira. Queira amor, mas também ame. Ande ao lado de alguém, mas queira estar lá. Decida, mas não demore, pois podem decidir por você. Seja feliz, mas faça alguém feliz também. Abrace, cuide e apóie. Segure, proteja e sinta. Seja o travesseiro de alguém, ou o cobertor, mas não abra mão do seu conforto e do seu calor. Peça perdão, mas também perdoe. Perdoe a si mesmo pelos erros cometidos, pelo que fez e pelo que deixou de fazer. Aceite e se perdoe. Viva em paz. E deseje que alguém, aquele alguém, viva nesta paz com você.

Desculpem-me: Precisava dizer tudo isso. Pra mim mesma.

A-final

Acredito, piamente, que todos na vida têm algum arrependimento. Acredito que ninguém vive tão apaticamente. Todos nós estamos sujeitos a querer refazer, repensar... Ou pelo menos desejar. Acredito que todos têm a opção de voltar atrás... Mas sei que, nem sempre, esta é a melhor escolha. Talvez neste erro, neste arrependimento no qual você padece, você tenha deixado alguém ferido. Talvez você tenha dito coisas consumidas pela raiva, pela falta de compreensão e pela ignorância. Talvez você nem se lembre das suas palavras e de suas ações. Vai ver, a intensidade com a qual você falou não foi a mesma intensidade ouvida. Talvez você tenha perdido tudo de importante na sua vida. Talvez? Talvez não. Atesto aqui a minha certeza. Na vida, muitas vezes, damos ouvidos às pessoas... Damos ouvidos a comentários invejosos, ciumentos. Damos ouvidos a um “amigo” e esquecemos-nos de ouvir o nosso coração. O homem é o ser mais vulnerável e influenciável que existe. Na mesa de bar, o que ouvimos dos outros vira lei. Na mesa de bar, o que falamos, falamos com superioridade. Falamos com certeza e imposição. Temos toda a razão do mundo. E aí, esquecemos nossos valores, esquecemos o que realmente importa… e ai, destruímos tudo. Uma destruição talvez imperceptível na hora em que ela acontece – mas imperceptível pra você. Pra outra pessoa não. A outra pessoa, talvez sem conseguir respirar, tenta falar... Tenta fazer você parar... Mas você já não deixa mais. E fere. Fere cada vez mais. E a cada ferida, você sente o gostinho do alívio. Da vingança. O gostinho de achar que tem a razão pelo menos naquele momento. O amor continua - o respeito acaba. E assim, tudo acaba. O amor passa e a vida continua. Magoar e machucar como você nunca magoou ou machucou alguém parece o melhor a fazer. Você crê que impôs respeito. Gritando no meio da rua... Você acredita, confia que impôs respeito. Deixou claro o que faz sem a outra pessoa saber... Ou fala. Com quem fala. Às escuras. Sem ser claro e honesto. Acusa a pessoa de ser a culpada pelas mudanças na sua vida. Acusa-a de coisas que você nem mesmo concorda. E quando você acorda, sai do êxtase de estar fora de si, volta. Volta como se nada tivesse acontecido. E ai, a outra pessoa ri. Ri. Ri, porque já chorou tudo que poderia. E é aí, neste momento, que você deve virar suas costas e ir embora. E pode ter certeza: ir embora deveria ser o menor de todos os seus arrependimentos.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Vem, vem, vendo, vivendo.

Engraçado como as mudanças acontecem minuciosamente, nos impossibilitando de vê-las, entendê-las ou detê-las a olho nú. As minhas mudanças têm vindo à tona de maneiras curiosas. Cada dia encontro ou descubro algo de novo em mim. Leves indisposições, impaciências desconhecidas...que vem apresentado-se a mim como uma enxaqueca, talvez. Reconheço diferenças e as dou espaço para crescerem, fortificarem-se e até para não serem tão diferentes assim. Caminho de grupo em grupo, corro durante minha vida para encaixar todos os por menores e até os maiores por maiores que consigo assimilar. Corro pelo dia para atender berços diferentes, velhas fontes, nascentes atrasadas. Realizações tardias e perdas antecipadas. Como virá a noite de hoje? Como sempre vem? Com o cair do sol...com o frio da tarde? Será? Vivo para algum dia ver a noite chegar a cavalo...ou até para ver ela não vir. Permaneceria dia? Será que é tão diferente assim... A noite do dia? Vejo você, vejo ele/ela/eles/elas, me vejo. É uma questão de fé, ver a todos e ver cada um. É uma fé depositada em si e outra depositada em ti. Mas ter a fé, achar a fé e depositar a fé, são coisas distintas e distantes. É instantânea a rejeição a ela pois com ela, adquirimos o poder de enxergar e de enxugar o excesso de caractéres do nosso roteiro. Todo jornalista, todo escritor e até todos que encontram o seu todo em tudo que escrevem, desejam viver a vida que vivem no papel, ou a vida que o papel lhes permite viver, e não a vida vivida fora dele. Continua sendo instantânea a rejeição ao diferente e ao pior, por pior que você seja. Engraçado o pobre rejeitar a si, o faminto rejeitar a fruta, o amante rejeitar a dor. Leva, leve, releve tudo que digo para longe. Não faz sentido...e o sentido não dá pra ser sentido sem que algo faça sentido. Ou não?